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TDAH - Quando o seu maior vilão é você mesmo

Relatos de uma pessoa diagnosticada recentemente e mudanças após tratamento

Motivação (ou a falta de)

Se você reparar, a minha última postagem já faz 3 meses. Apesar de deixar bem claro que este blog não é algo que precisa ser escrito com uma certa frequência, já houve oportunidades em que me sentia inspirado para continuar a escrever, mas eu não sentava no computador para fazer isso. Ao invés disso, preferia fazer qualquer outra coisa “mais importante” (spoiler: nunca era!)

Agora, imagine que isso acontecia não apenas com o blog, mas com absolutamente tudo em minha vida. Simplesmente tudo. Até aí, você diria que é falta de planejamento do seu dia e, no final, gastar o seu tempo livre no celular. E você está certo, só isso não é nada de mais e é erro meu na organização da minha vida.

Era exatamente isso que eu pensava também, até começar a reparar que meu trabalho também está afetado desta forma e, diferente de qualquer outra atividade considerada como lazer, eu levo meu trabalho a sério e quero sempre fazer o melhor que posso. E aí, eu tenho tarefas para entregar. Você pensa “Bom, vamos começar a tarefa então”, mas você não consegue começar. Algo te impede. Você sabe que não tem basicamente nada te impedindo. Mesmo você conscientemente pensando que PRECISA ir até Sua mesa de escritório, você não se mexe. E aí você reflete:

O que está acontecendo comigo??? Por que estou agindo como se estivesse preguiçoso? A tarefa tem prazo de entrega! **SE MEXE, HUGO!!!!

E nada adianta. Você não move um dedo e não está se sentindo depressivo, pois você consegue realizar outras tarefas e não se sente sem disposição. O tempo passa e a tarefa vai se tornando mais urgente. Com isso, dois resultados possíveis sempre acontecem:

  1. Você vê que o tempo está acabando e sai correndo para terminar aquilo como se não houvesse amanhã. A tarefa é entregue com sucesso, mas em seguida um cansaço extremo te consome junto de uma culpa pensando “Por que você é assim? Era só ter feito um pouquinho todo dia e entregaria sem problema algum”
  2. O trabalho atrasa. Você começa a ter dificuldades no meio do processo e vai fazendo conforme consegue. Pede ajuda para conseguir tentar finalizar o mais rápido possível. Entrega depois do prazo previsto

Agora, some isto a qualquer tarefa obrigatória que você já fez anteriormente, como seus trabalhos escolares, seu TCC, suas lições de casa, os favores que pediram a você, etc. Mesmo que você prometa que a próxima vez será diferente, ela nunca foi e nunca será. Mas a culpa vai cair em você sempre, pode apostar.

Energia constante

Agora vamos ao fator que mostra que você tem total disposição e vontade: cozinha o seu almoço num dia, sai para almoçar fora em outro e vai passear toda semana no shopping. Seu amigo te chama para ajudar na mudança e você aceita sem problemas. Ajuda e carrega bastante coisa, já que tem energia de sobra. Ele te agradece e convida todos para jantarem fora como comemoração.

Chegando na mesa, todos começam a conversar e você tem algo legal para acrescentar, mas sabe que sua memória é curta para lembranças durante conversas e, sem perceber, interrompe quem estava falando para adicionar o seu ponto. Ninguém fala nada e segue a conversa normalmente. Em outro momento, alguém começa a falar com você e a frase que ela está dizendo já é previsível na sua cabeça, então você completa o que ela está dizendo para mostrar que está prestando atenção na conversa. Só que você descobre que não era isso que a pessoa ia dizer, te corrigindo. “Ah, entendi. Errei então”

De repente, alguém fala sobre um cereal novo que comprou e adorou. Imediatamente a sua cabeça lembra que seu cereal acabou e precisa comprar mais. Você se lembra do mascote da Kellogg’s, que é um tigre. O tigre de Mogli e Tarzan surgem na sua mente, que são da Disney. Em seguida, sente saudades do Art Attack que passava no Disney Channel, com a lembrança de só ter acesso à TV a cabo quando já era adulto, porque era caro. Quando criança, você só assistia TV a cabo quando sua tia lhe chamava para ir à casa dela comer pizza. Por fim, você sai dos pensamentos e se dá conta de que Estava num restaurante com seus amigos e a conversa já prosseguiu e estão falando sobre trabalho.

Após um dia muito cansativo, a conta chegou: você está exausto e já quer dormir, então se arruma para deitar. No meio, seu cansaço some com sua vontade de dormir, fica irritado e decide jogar um pouco para aproveitar o resto da noite, já que amanhã é segunda, dia de trabalho. O sono só vem às 2:00 e você desliga tudo, preocupado que vai precisar acordar cedo. Ao deitar, sua cabeça faz a mesma ligação que fez no restaurante, não te deixando dormir. Você conscientemente pede para seu cérebro desligar, mas nem te escuta. Você só dorme quando está esgotado e já são 3:30.

Dia seguinte, você acorda até que disposto, mas como sempre: cara de zumbi. Levanta, vai comer algo e começa o trabalho. Na reunião técnica, você basicamente dissocia por alguns segundos e volta, mas perdeu parte da explicação de como será estruturado o projeto, mas não pergunta porque não acha que tem dúvidas no momento. Durante o horário de trabalho, sua cabeça mantém esse ritmo de divagar e retornar, demorando muito tempo para entender o que é para ser implementado. Você se lembra que dormiu pouco e já sai do trabalho no fim da tarde, muito cansado e sem ter feito muita coisa. O sono desta vez chegou mais cedo e você fica contente que vai descansar bastante.

O dia seguinte foi de um sono de 10 horas, que compensou o dia anterior. Porém, você está se sentindo destruído de cansaço e acordou “zumbi” da mesma forma, que passa após 20 minutos, acordado. Ainda que bem-disposto, você continua divagando e retornando, não conseguindo progredir muito. Termina o expediente e tem o mesmo cansaço de ontem, sendo que você sente que não fez nada. Algo está errado.

Perda de memória recente

Durante o dia, você faz uma pausa do trabalho porque o ciclo da lava-louça terminou e você vai guardar a louça. Ao levar parte dela para o armário, olha para baixo e o lixo está abarrotado, então precisa trocar o saco e levar o lixo mais tarde. Pego o saco no armário e vejo que o fogão está sujo, então tenho que limpar. Passando o produto, deu vontade de fazer xixi e vou até o banheiro. Dou a descarga, lavo a mão e retorno para mesa de trabalho. Quando chega a hora do café, o produto de limpeza está aberto em cima da pia, o balde de lixo aberto sem saco e a lava-louça está com a porta aberta, com louça limpa atrás.

Tudo bem. Finalizo isso tudo e vou esquentar a empada no micro-ondas. Abro a porta dele e tem um pote com sopa dentro, que era para eu ter tomado no almoço. Jogo fora por ser uma sopa que não é do mesmo dia e não arrisco guardar para depois, pois pode ter estragado já. Saio para ir ao mercado, pego os produtos que estão faltando em casa e pego mais algumas coisinhas diferentes para experimentar. Chego em casa e vejo que peguei tudo que faltava, menos o papel higiênico. Amanhã vou precisar voltar ao mercado, porque hoje já fechou.

Sento para mexer no celular e conversar com meus amigos cronicamente online. De repente, lembrei de uma pessoa que tenho muita consideração e decido mandar uma mensagem, mesmo que não somos ainda muito próximos. A nossa última conversa foi há 2 meses e não puxei mais assunto desde então. Se eu tenho muita consideração por ela, por que eu não conversei mais com ela?

E como eu consegui me esquecer dela e só lembrei assim, de repente??? Eu sou tão desalmado assim para esquecer das pessoas?

Muitas emoções

Um dia, estava assistindo vídeos e fiquei extremamente interessado no assunto. Achei muito interessante e decidi procurar mais informações. De repente, começo a estudar sobre esse assunto com muito entusiasmo e só penso nisso. Quero compartilhar com todo mundo as informações que aprendi, porque é bem legal! Um conhecimento novo é sempre bom e já aprendi coisas bem mais técnicas e complexas.

Uma semana depois, comprei várias coisas relacionadas a esse assunto e, sem mais nem menos, perdi o interesse. Não tenho Mais vontade alguma sobre aquilo e larguei. Algum momento que o interesse voltar, eu já tenho tudo pronto (Spoiler: não vai voltar).

Volto aos meus interesses constantes: jogos, tecnologia e computação. Decido começar a estudar um framework novo e elaborar um projeto pessoal utilizando essa ferramenta, apenas para fixar meus conhecimentos. Fico preso em uma parte e preciso verificar a documentação. Não consegui entender muita coisa, mas vou tentar corrigir o problema. Não deu certo, então procuro alguém que já teve este problema na internet. Encontro e consigo corrigir e tive outro problema. Tento procurar como corrigir e nada. Não consigo entender por que está dando erro, então começo a ficar frustrado e deixo para continuar outro dia. O “outro dia” nunca chegou e o código está lá até hoje, parado.

Um dia, chego no trabalho e recebo um feedback de algo que preciso melhorar. Não é nada sério e não foi nada grosseiro. Agradeci e falei que vou tentar melhorar isso, mas por dentro me senti completamente inútil. Uma sensação de que sou imprestável e que não me considero um bom profissional. Fico com essa sensação o dia todo, mas no dia seguinte passa e já estou bem.

Em casa, me disseram que eu não estou colocando a roupa para lavar com frequência e o cesto está ficando cheio e a pessoa não está em casa para colocar todo dia. Ela tem razão, pois eu sempre esqueço de colocar a roupa para lavar, mas me senti mal na mesma intensidade do feedback do trabalho e passou no dia seguinte também.

A vida é difícil assim. Até agora

Conversando com minha psicóloga, vi que essas questões me afetam, mas não chegam a me causar uma crise de ansiedade ou depressão, tirando poucas situações que de fato ocorreram quando tudo veio de uma vez. Juntou com outras situações que ocorreram, como não conseguir ficar quieto, precisar fazer algum movimento a todo momento, pegar uma caneta e brincar com ela durante uma reunião, mexer braços e pernas numa fila de espera ou pensar em qualquer outra coisa quando a conversa… ou reunião está entediante. Estes comportamentos apareceram desde a infância, mas só com a terapia as lembranças surgiram, levando assim a uma suspeita de TDAH.

Considerei, tinha quase certeza que era e muitos amigos com este transtorno já me falaram que eu tinha, com quase 100% de certeza. Deixei para fazer a avaliação mais para frente, até cheguei um dia que realmente tive um momento muito depressivo, dizendo que não dá mais para viver nessas condições. Eu precisava de ajuda e, depois do banho, já marquei a avaliação neuropsicológica no dia mais próximo que tivesse.

Após um mês de diversas sessões, estava finalmente confirmado que eu tinha TDAH. A sensação era um pouco de alívio, pois agora vejo que eu não “sou preguiçoso” e nem “faço tudo de qualquer jeito” intencionalmente, como já ouvi a vida inteira de familiares e professores, reforçando que eu precisava “apenas me esforçar mais”. Também não era “muito sensível”, porque me sentia mal quando falavam algo que não gostava para mim e, mesmo eu sabendo que não era nada de mais, eu sentia demais.

Com o diagnóstico, procurei um psiquiatra e iniciei o tratamento com medicação, já que também faço acompanhamento psicológico. A mudança foi BRUTAL logo nos primeiros dias. Não senti vontade de fazer tudo que eu podia naquele dia, mas eu reparei que eu simplesmente precisava fazer uma tarefa no trabalho, sentei no computador, comecei e fiquei lá por… Um tempo gigantesco, sem parar. Nos dias seguintes, senti que já dispersava um pouco e mexia no celular ocasionalmente, mas eu consegui controlar e retornei sem problemas. Parece que estou em outra realidade, na qual eu tenho controle do que eu realmente quero fazer.

Outra coisa que notei bastante diferença foi a parte sensorial. Não gosto de estar em locais extremamente movimentados, como eventos, festas e pontos turísticos, me sentindo desconfortável após alguns minutos no local. Por muito tempo eu pensei que era um traço introvertido, mas era apenas uma hipersensibilidade. Inclusive, o cansaço que eu sentia ao sair de um shopping era exatamente por isso e só reparei após tomar a medicação.

Com o sono também melhorado, agora a ideia é tentar ajustar minha rotina, encaixando atividades físicas e dormir cedo, já que o remédio não faz milagres e, ao mesmo tempo, eu não conseguia mudar isso sozinho. Quem estiver suspeitando de ter o mesmo transtorno que eu, recomendo que procure um profissional quanto antes, pois a diferença na qualidade de vida é absurda. Quem não conseguir sozinho, peça ajuda para alguém te auxiliar, mas não deixe para depois. Há muitos problemas sérios que o TDAH pode trazer se não tratar.

Após um texto quilométrico, vamos ver se volto a escrever com mais frequência. Até lá, fiquem bem e não deixem sua saúde para depois, seja mental ou física.

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